terça-feira, 16 de março de 2010







Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

( Poema do silêncio - Jose Regio)



Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009



Por mais que eu quisesse permanecer
Por mais que eu quisesse que você tivesse ficado
Nada poderia ser feito
Você não ficou
Mas eu permaneci
Finquei minhas mãos no tempo
E rasguei o véu do espaço
Olhei para trás
Vi você chegando
E vi você partindo
Nada poderia ser feito
Foi quando lembrei de não lembrar
E apenas olhar ao redor
No adiante iminente
Já não queria mais pensar
Nesse centro impermanente de beirada-de-abismo
Onde vivo, sem saber voltar
Nascente de vertigem que desagua o salto
Cordilheira de queda que configura o vôo
E por mais que eu quisesse permanecer
Algo além de mim quis que eu não tivesse mais escolha
Algo além de mim quis que eu me deixasse para trás
E me tornasse
Simplesmente
Alguém além de mim
Alguém além daquela que espera por você
Alguém além da permanência e da espera
Alguém que é
Agora
Simplesmente você...




Abro meus olhos
Escuridão
Ouso então um olhar
Para dentro de mim,
Onde se escondem os
Mais puros pensamentos,
As mais ardentes aflições.
É luz, que vejo.
E, então, a luz me cega.
Mas luto contra a claridade,
E abro os olhos finalmente
Para o que se revela um mundo
Vivo, pulsante, colorido.
Banho-me, e desfruto
Da inigualável sensação de LIBERDADE.
A simples sensação de existir apenas para si mesmo...
E sem medo, corro os riscos,
E libero a luz.
E ela percorre o espaço,
Desafia o tempo,
E vai contra a própria realidade.
Sinto o pulsar de todas as coisas,
E todas elas são vivas.
Ouços todas as vozes,
E sei de todas as coisas.
Tudo, por um único segundo.
Não há mais palavras...
Contemplo agora a calma
Que me cerca, e ,serenamente,
Fecho meus olhos.




Por que sei que estou no deserto?
Pelo excesso de areia em meus olhos,
Em minhas mãos.
Pela secura da garganta misturada a grãos de silício...

Por que sei que estou no deserto?
Pela dor que sinto quando acordo
Depois da noite mal dormida.
Pela dor constante que sinto,
Na boca do estômago.
Pela dor insistente e latejante,
Em meu coração.

Por que sei que estou no deserto?
Por causa do excesso de luz durante o dia,
Que cega.
Por causa da falta de lua a noite,
Que cega.
Por causa da falta de perspectiva e horizonte,
Que cega.

Por que sei que estou no deserto?
Porque sei que não adianta acreditar em nada,
Porque simplesmente não acredito em nada.
Não acredito nas artes,
Não acredito nas ciências,
Não acredito em nenhuma religião;
Em nenhum santo,
Em nenhum buda,
Em nenhum cristo,
Em nenhum homem,
Simplesmente porque sei que não adianta acreditar em nada,
Pois a morte me espera.
E o mistério de escapar dela
Não me foi revelado por ninguém
E pior: não me foi revelado por mim mesma
Por isso, sei que estou no deserto,
E se continuar assim não escaparei...
Como ninguém, igual a mim, até hoje, escapou!
Não me venham com caminhos toltecas,
Com histórias de phistis e de sophias,
De kardeques desencarnados,
De teosóficos blavastiquis,
Ou antroposteiner... de nada adiantarão,
pois todo dia quando acordo:
sempre sou e sempre é hoje.
Por isso, sei que estou no deserto...
E não há nada a mim revelado que possa
Aplacar a minha dor e a minha estonteante sensação
de que sou um super-herói e que irei salvar o universo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009




Minhas asas estão feridas,
pelo medo que paralisa,
pela angústia que aprisiona,
pela ansiedade e sua gangorra.

Minhas asas estão sujas
como as lamacentas ruas,
onde correm pecados e lamúrias,
e não ocorrem vôos, e não se vê a lua.

Minhas asas estão cansadas
do peso da solidão que carregam,
de esperar a libertação tão sonhada,
da força da gravidade sem trégua.

Minhas asas estão mergulhadas
no tempo e no espaço,
na expectativa do enlace
que me leve à eternidade amada,
à Ternura de que vivo esfomeada,
à Felicidade de que fui excluída,
à Paz finalmente sentida.

Minhas asas estão quebradas
pelas horas amargas
que causam a idiotice coletiva,
e a falta da fraternidade amiga,
e a falta do brilho nos olhos...
Sorrir enquanto outros chorem?

Minhas asas estão fracas, sem viço, pobres,
sem cor, empoeiradas, envelhecidas...
Mas ainda assim são asas.
Asas de desejos nobres,
que, talvez, um dia, quem sabe,
possam ainda voar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Eu acho que Oswaldo Montenegro estava inspiradíssimo quando escreveu isso.
Não há maior inspiração e magia do que o Amor!!!
É o amor que move o mundo.
Qualquer hora dessas vou me inspirar e escrever sobre....


_________________________________________________________________
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
[Oswaldo Montenegro]